Níveis de Organização Biológica

A História da Ecologia


A palavra “ecologia” vem do grego ‘oikos‘, que significa ‘casa’, numa clara referência ao estudo da nossa vizinhança, do ambiente a nossa volta. Assim, a ecologia estuda como os organismos (animais, plantas e micróbios) interagem entre si e com o meio ambiente.

Este campo do conhecimento biológico só foi reconhecido no começo do século XIX, quando alguns cientistas começaram a se denominar ‘ecólogos’. Sobre o que era a ecologia, Ernst Haeckel, o primeiro a usar tal termo, em 1870, disse:

“Pela palavra ecologia, queremos designar o conjunto de conhecimentos relacionados com a economia da natureza – a investigação de todas as relações entre o animal e seu ambiente orgânico e inorgânico, incluindo suas relações, amistosas ou não, com as plantas e animais que tenham com ele contato direto ou indireto, – numa palavra, ecologia é o estudo das complexas inter-relações, chamadas por Darwin de condições da luta pela vida”.

Vale salientar que a palavra ‘economia’, que também deriva do grego ‘oikos‘, tem uma relação com a ecologia e ambas apresentam conceitos e mecanismos relativamente semelhantes. Apesar de apresentarem diferenças discrepantes, alguns conceitos de uma área podem ser utilizados em outra.

Antes de Haeckel, os filósofos gregos já haviam escrito alguns textos que continham claras referências a tópicos da ecologia, embora nenhum deles tenha criado uma palavra para definir tal campo. Somente no começo do século XVIII que o campo da ecologia começou a formar um corpo teórico forte, quando o microscopista Antoni van Leeuwenhoek e o botânico Richard Bradley criaram alguns conceitos que até os dias atuais são familiares aos ecólogos (a saber: a cadeia alimentar e regulação populacional, para o primeiro e produtividade biológica, para o segundo).

Contudo, as primeiras sociedades e periódicos de ecologia só começaram a surgir no século XX, assim como conceitos importantes (como o nicho ecológico, metapopulação, metacomunidade, ecologia de paisagem, entre outros) e, desde então, este campo tem crescido muito e os ecólogos produziram um grande corpo de conhecimento acerca do mundo que nos rodeia.

Com a publicação da teoria da evolução biológica, muitos conceitos foram introduzidos nas ciências ecológicas e tais conceitos atualmente são graandes pilares da ecologia teórica atual. Ao longo do tempo, o estudo da ecologia foi dividido em linhas taxonômicas, tais como ecologia vegetal, ecologia animal ou ecologia molecular e em compartimentos do habitat, tais como ecologia terrestre e aquática, e novas áreas ainda estão surgindo com o acúmulo de novos conhecimentos.

Objeto de estudo

A ecologia estuda os sistemas biológicos. Um sistema é um conjunto com dois ou mais componentes, que interagem, e que estão cercados por um meio ambiente, com o qual podem interagir (sistema aberto) ou não (sistema fechado).

Os sistemas biológicos apresentam componentes bióticos e abióticos e podem ser de vários tamanhos. Cada sistema ecológico menor é um subconjunto de um sistema ecológico maior. Assim sendo, os sistemas ecológicos podem ser organizados em hierarquias e há propriedades que emergem em níveis mais complexos que estavam ausentes em seus níveis inferiores isoladamente.

Os níveis hierárquicos são:

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  • Organismo – é a menor unidade utilizada na ecologia. Os organismos são delimitados por membranas, que separam seu ambiente interno (que não é objeto de trabalho da ecologia) e o ambiente externo, com o qual interage.
  • População – conjunto de organismos de uma mesma espécie numa determinada área.
  • Comunidade – é a interação entre duas ou mais populações de organismos, num mesmo hábitat. A estrutura das comunidades ( se são contínuas [abertas] ou delimitadas [fechadas]) é alvo de muitos debates na ecologia.
  • Ecossistemas – grupo de todas as comunidades e componentes abióticos, com o qual interagem, num determinado hábitat. Neste nível podem ser observados de maneira mais clara os ciclos biogeoquímicos e a cadeia alimentar.
  • Biosfera – é o conjunto de todos os ecossistemas da Terra. Estes ecossistemas são interligados por fluxos de energia e dos nutrientes, transportados por correntes de vento, de água e a movimentação dos organismos.

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Os biomas são, por vezes, utilizados como sinônimos de ecossistemas, mas os biomas somente consideram o espaço físico e composição das espécies, não incluindo as interações entre elas.
 
 
 

É interessante notar que cada nível hierárquico demanda uma abordagem específica, embora exista alguns parâmetros que são semelhantes em todos os níveis. Os “ecólogos de organismos” visam observar as adaptações dos organismos aos seus ambientes, os de população se preocupam com os números de indivíduos e suas variações ao longo do tempo, a abordagem de comunidades busca compreender a diversidade e abundâncias relativas de diferentes tipos de organismos num mesmo habitat, já quando se estuda os ecossistemas, o objetivo é avaliar os fluxos de energia e matéria e, por fim, a abordagem de biosfera trata de movimentos de ar, água e nutrientes por toda a terra.

Mas, por que estudar ecologia?

Durante os anos de 1968 e 1970, surgiu uma preocupação com as matérias ambientais, como a degradação dos ecossistemas, poluição dos corpos d’água e atmosférica, principalmente em decorrência da publicação do livro “Primavera silenciosa”, de Rachel Carson. Tal livro desencadeou uma cadeia de reações políticas, que resultou na conferência de Estocolmo, em 1972.

Alguns se referem aos anos 70 como a “década do meio ambiente”. Foi nesse período que ocorreu o primeiro “Dia da Terra” (em 22 de Abril), o que popularizou o debate acerca dos problemas ambientais. Em seguida, durante os anos 80 e 90, outros assuntos se tornaram mais populares (como a guerra fria, crime, orçamento do governo, entre outros).

Entretanto, o agravamento da crise ambiental, alta do preço do petróleo, acidentes como os de Chernobyl ou do Exxon Valdez, trouxeram o debate sobre os problemas ambientais de volta ao cenário político e, desde então, ele se mantém como palco de intensos debates por todo o mundo.

Assim, o rápido crescimento da população humana, juntamente com a degradação do meio ambiente e recursos naturais, fizeram com que o conhecimento ecológico seja ainda mais necessário, para que possamos criar políticas de manejos adequados aos biomas e reduzirmos nosso impacto ambiental na natureza.

É importante distinguir aqui a “ciência ecologia” dos “movimentos ambientalistas”. A ecologia busca entender as relações entre os seres vivos, como funciona o fluxo de energia e matéria ao longo da cadeia trófica, qual a relação dos seres vivos com o seu ambiente e como estes seres vivos respondem à pressões ambientais (sejam elas naturais ou não).

Assim, a ecologia por si só já justifica a sua importância e suas consequências práticas podem ser muitas, e dentre estas há a utilização para resolver problemas ambientais. Essa importância da ecologia deve-se ao fato que ela nos permite observar e entender padrões de distribuição das espécies, manutenção de serviços ecossistêmicos, reciclagem de nutrientes, água e regulação da qualidade do ar, entre outras ferramentas que são importantes para compreendermos como administrar os recursos ambientais e permitir a sustentabilidade à longo prazo.

Fonte: “A Economia da Natureza, 5 ed.”, Ricklefs (2003) e “Fundamentos de Ecologia, 5 ed.”, Odum (2007)


sobre Jeferson Silva

Estudante de graduação em Biologia pela Universidade Federal da Bahia, Brasil. Atualmente é Intercambista ao abrigo do Programa Ciência sem Fronteiras na Universidade do Porto, Portugal.

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